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Incio Exposies Em exibio MOITA MACEDO
MOITA MACEDO

755 MOITA MACEDO

 

MOITA MACEDO

 

Uma Antologia

 


CENTRO CULTURAL DE CASCAIS (piso 0), 14 FEVEREIRO A 26 ABRIL  PROLONGADA AT 3 NOVEMBRO

 

 

Em Cascais estamos sempre disponveis para acolher e mostrar a obra de nomes consagrados
das artes plsticas ou de quaisquer outras manifestaes do pensamento criativo, apostando
na Cultura como motor de desenvolvimento e de enriquecimento do nosso Concelho.


Num momento especial, porque celebramos cinco anos de atividade do Bairro dos Museus,
com grande orgulho que apresentamos a pintura de Moita Macedo. Poeta e pintor, Moita
de Macedo foi um autodidata por natureza, deixando trabalhos artsticos que ainda hoje so
inditos ou pouco conhecidos.


Desse modo, com a exposio Moita Macedo, uma Antologia pretendemos dar a conhecer
a muncipes, turistas e demais visitantes a produo pictrica de um artista que soube
colocar na tela um expressionismo pouco comum entre os seus contemporneos, podendo
ser considerado uma das figuras da segunda metade do sculo XX, altura em que a arte se
democratizou e chegou a todos sem qualquer filtro.


Prximo de Almada Negreiros ou Artur Bual, nomes que influenciaram a sua obra, Moita de
Macedo integra uma gerao cujo legado viria a ser uma inspirao para novas manifestaes
culturais.


De 14 de fevereiro a 26 de abril, o Centro Cultural de Cascais , assim, a casa/palco da pintura
de Moita de Macedo, na perspetiva de que, depois desta exposio, a obra deste artista ganhe
ainda mais apreciadores.
Boa visita!


CARLOS CARREIRAS
Presidente da Cmara Municipal de Cascais

 

 

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O Trao que Fere as Telas

 

A obra pictrica e desenhstica de Mota Macedo, pintor prematuramente falecido em 1983, com 52 anos, goza hoje do estatuto rarssimo daqueles segredos que quem os conhecer guarda preciosamente como fonte nica de deleite. Dele, conhece-se a vida de famlia e profissional integrou durante dcadas os quadros da Siderurgia Nacional, onde desenvolveu tambm actividade cultural e associativa de relevo -, o empenhamento poltico, mesmo antes da revoluo de Abril de 1974 e, no caso que nos interessa agora, a prtica da poesia, da pintura e do desenho. Destacamos este ltimo ncleo de trabalhos, que constituem o cerne desta exposio antolgica, j que eles revelam um processo exaustivo, consciente e sistemtico que nem a pintura e, em menor grau, a poesia, podem deixar transparecer.


Moita Macedo tem, de facto, uma notvel produo desenhstica, que se declina em sries e temas j estudados e analisados por historiadores da arte de renome, como Fernando Antnio Baptista Pereira e Vtor Serro, e curadores no menos reconhecidos, de que destacaremos Antnio Franco, j falecido, e que foi responsvel pelo MEIAC Museo Extremeo e Iberoamericano de Arte Contemporneo, que teve um importantssimo papel de divulgao da arte contempornea portuguesa em Espanha.


Baptista Pereira foi o primeiro a avanar com uma classificao do conjunto de centenas de desenhos de Moita Macedo, ancorando-a contudo num suporte figurativo que hoje nos parece ficar aqum da riqueza estilstica que o artista sempre revelou. "Desejos: rostos e nus", "Tauromaquias", "Quixotes", "Cristos e Calvrios", "As cidades, as figuras, as lutas" ou "Caravelas" clarificam de facto aparentemente ncleos na extensa obra sobre papel de Moita Macedo. Contudo, a prtica do desenho no obedece aos mesmos parmetros de inteno, de estudo prvio da pintura ou da escultura. A mo que desenha, mesmo que ela se sirva do pincel e da tinta da china, de uma esponja com tinta, de um pedao de carvo ou sangunea possui uma liberdade que o pintor no reivindica. Uma liberdade que inclui at o corpo: possvel desenhar em p, esticado, acocorado, no cho ou pregando a folha de papel na parede. Em suma, o desenho livre, e mais do que isso, liberta quem o faz. No automatismo que Moita Macedo sempre preferiu, no existem divises em gneros, estilos, temas. Mesmo quando eles surgem uma e outra, e ainda outra vez.


Autodidacta, sem formao superior em qualquer academia, Moita Macedo, como tantos outros artistas da sua gerao, e mesmo mais novos, comea a frequentar a Cooperativa Gravura em 1963. Conhe a Almada Negreiros. Com este mestre modernista aprende os rudimentos da tcnica da gravura que, num ambiente provinciano como existia na altura em Lisboa, sem mercado da arte consistente, era um dos rarssimos meios que estavam disposio dos artistas para criar e comercializar o seu trabalho. Almada, pintor e desenhador exmio que nesta poca ainda no enveredara pela abstraco geomtrica (como suceder na ltima obra que criou, o painel "Recomear", feito para o edifcio da sede da Fundao Calouste Gulbenkian, em 1970) partilha com Moita Macedo o interesse pela experimentao formal, tcnica e estilstica que podemos ver, por exemplo, no virtuosismo com que alterna um cubismo elegante com um trao quase naf e popular nos grandes murais feitos para as gares martimas da Rocha Conde de bidos, na dcada de 40. Por outro lado, dois anos mais tarde conhece Artur Bual, de quem se tornar amigo. Como este, Moita Macedo ir desenvolver, tambm no desenho mas sobretudo na pintura, um automatismo de raiz surrealista, embora nunca enfeudado aos programas e manifestos dos grupos mais ortodoxos, de influncia francesa. O surrealismo de Moita Macedo, pelo contrrio, profundo, instintivo, radicado na conscincia de que existe algo na arte que est muito para alm da racionalidade, da palavra, da explicao ou da teoria. Existe, na arte, qualquer coisa que da ordem do indizvel, e a permanente procura desse ponto de origem que fundamenta a sua obra plstica. H algo de no alinhado, de nada ortodoxo, de livre, em suma, nos traos, nas manchas, nos escorridos, nos pincis e nas trinchas que atravessam a folha de papel, a tela ou o platex, e mesmo, numa srie excelente de peas, nos separadores de dossier de escritrio, que foge completamente a todas as classificaes que ns, historiadores e crticos de arte, lhe queiramos dar.


Em tempos, o escultor Rui Chafes disse que a obra de um artista no tem que ver nem com as experincias, nem com arrumaes de arquivista. Assim ; tudo isso so ferramentas de quem escreve e ordena a histria, mas no de quem faz mesmo: aje no terreno. Se, de facto, podemos distinguir nas vrias obras que esto includas nesta exposio forma e figura, por um lado; ou preenchimento do espao disponvel num all-over sem centro nem periferias, de parentesco certo e evidente com os vrios expressionismos abstractos e lricos que, de Nova Iorque a Paris, proliferaram a partir do fim da segunda guerra mundial, no menos verdade que a transio de um modo de entender o suporte para outro no obedece a outra ordem que no seja a da lgica interna da obra. Moita Macedo no nem figurativo nem abstracto, o seu trao no aberto nem fechado, a sua tcnica de eleio no nem a pintura nem o desenho, ou a gravura, nem o meio de que se serve ser o carvo ou a tinta-da-china, o lpis de cr. tudo isso ao mesmo tempo, ou seja, a conjuno que se deve aqui utilizar para tentar definir a sua obra (tarefa partida condenada a falhar!) ser sempre um "e" em vez de um "ou". Pollock no est muito longe da sua obra. Pollock, e Hans Hartung, e Paul Mathieu, e Almada, e Picasso, e Bual, e Motherwell, e a pintura simultaneamente religiosa e humanssima de Rouault...

 

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Sem ttulo, 1970  |  Acrlico sobre platex  |  60x80 cm

 

E a poesia, que por natureza de sentido aberto, e onde podemos encontrar um paraelismo com a nsia de abarcar todos as formas possveis da materializao da arte, num jorro criativo que no parece esgotar-se nunca. na poesia, com efeito, que Moita Macedo se aproxima com mais eficcia da multiplicidade de fontes de inspirao que nele convergiam, as mesmas que, um dia, lhe fizeram dizer "pintei versos, escrevi quadros". Atente-se em Definio de uma plstica, onde afirma


A minha poesia pedra dura
Basalto que rolou pelos fraguedos

Tem por vezes a algidez da planura
Outras vezes a quentura dos vinhedos

E o pensamento terra
(...)

O meu sonho um cavalo
Sem ter freio
Meu suporte e razo
De asas aladas
Que me leva pairando
Nas alturas
A quanto sinto
A pequenez das estradas

E embebo de uma cor avermelhada
O trao com que firo as minhas telas.

 

Na estrita equiparao entre elementos da natureza, a terra, o pensamento, a estrada, o animal e, enfim, o trao vermelho que fere a superfcie da pintura reside, sem dvida, uma das chaves da interpretao da obra deste artista. Moita Macedo integra a gerao que deu sentido e valor, ainda na dcada de 60 e em Portugal, abstraco, entendida esta no seu sentido mais radical e exigente da palavra e do conceito. No se deixando depois academizar nem enlear em maneirismos mais amveis, renovou-se sempre, arriscando uma e outra vez regressar origem da criao para dar asas ao impulso criativo que era tambm, para ele, de natureza vital uma questo de respirao, de pele, de ferida.

 

Lusa Soares de Oliveira

 

 

 

 

 

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