755 HOMEM DE ACAO

 


H O M E M   D E   A Ç Ã O

 

A pureza do cinema de género, a economia da série B, a energia dos comics, os prazeres subversivos da literatura pulp, o sortilégio intemporal da tradição clássica, a acção elevada a arte: poderiam ser estas as coordenadas de um mapa tendo como destino Walter Hill, que este mini ciclo – seis sessões, no Auditório do Centro Cultural de Cascais – homenageia por ocasião do 40º aniversário de um dos seus filmes incontornáveis, "The Warriors/Os Selvagens da Noite". O legítimo herdeiro dos mestres da era de ouro de Hollywood, assume-se como continuador dos seus heróis Howard Hawks, Raoul Walsh e John Ford, fazendo a ponte entre estes e outro gigante, Sam Peckinpah, de quem se pode considerar um filho espiritual. O olhar que lançou sobre o passado, numa mescla de reverência e ironia, acabou por deixar marcas perenes no moderno cinema de acção (que o digam Michael Mann ou Kathryn Bigelow, que chegou a ser sua protegida), reinando incontestado como o seu cultor máximo.


O início de carreira deu-se nesses gloriosos anos 70 dos movie brats, onde tudo parecia possível no cinema americano, com Hill a formar com John Milius e Paul Schrader um trio de argumentistas-estrela. Os guiões do futuro cineasta assemelhavam-se mais a esboços esqueléticos, com os diálogos e a exposição narrativa reduzidos ao mínimo essencial e onde dava a ideia de não caber nem mais uma palavra. No entanto, a passagem para o grande ecrã revelou-se problemática, com os resultados finais a não deixarem transparecer muito as intenções de Hill. As excepções serão The Mackintosh Man (1973), de John Huston, e sobretudo The Getaway (1972), de Sam Peckinpah, adaptação de um romance de um perito da literatura noir, Jim Thompson (outra paixão de Hill), e momento decisivo no percurso formativo do aspirante a realizador.

 

755 Walter Hill filming Last Man Standing


Chegado o momento de dar o salto para trás das câmaras, mostrou logo ao que vinha: homens de poucas palavras, que se regem não pelo que dizem mas pelo que fazem, presos a uma ética muito própria, visceralidade, secura de tom, domínio absoluto das cenas de acção (no cinema hilliano, o impacto dos socos surge amplificado de forma dir-se-ia sobrenatural) e a vibrante vitalidade dos ambientes e décor (juramos sentir na pele o cheiro das docas e a degradação bafienta dos velhos armazéns tornados arenas). Belíssimo cartão-de-visita, "Hard Times/O Lutador da Rua" (1975) – 13 de Setembro; 21h30 – celebra, com um despojamento «oriental», o mito do herói errante – uma figura que aparece do nada e para o nada volta –, aqui um vagabundo que, na Nova Orleães da Grande Depressão, ganha a vida em combates ilegais para fintar o desespero. Um papel talhado à medida de Charles Bronson, então a vedeta mais popular do planeta, cujo rosto granítico nunca ostentou (nem com Leone) tamanha expressividade (aqueles olhos que parecem carregar toda a tristeza do mundo). A aparente simplicidade da história esconde uma complexa teia de relações humanas, desde logo entre esse espartano gladiador moderno e o jogador fura-vidas e tagarela (superlativo James Coburn) que lhe serve de empresário.


De um classicismo imaculado, Hill passou para um realismo exagerado, com o policial existencialista, muito melvilliano, até bressoniano, que é "The Driver" (1978), jogo do gato e do rato entre um ladrão e um polícia, ambos sem nome e espelho um do outro. Um movimento que foi acentuado em "The Warriors/Os Selvagens da Noite" (1979) – dia 14; 15h –, obra maior, abandonando as figuras solitárias em favor da dinâmica de grupo, neste caso, um gang de Brooklyn em plena odisseia nocturna de regresso a casa, das mean streets do Bronx à glória desvanecida de Coney Island e ao mar protector. Aqui, a estilização é total, numa carta de amor a uma Nova Iorque fantasmagórica e subterrânea (nunca mais olharemos para o metro da mesma maneira) habitada por tribos multirraciais e multicoloridas, devedoras de uma estética de BD (é para aí que apontam as transições entre cenas, «rasgando» planos como numa sucessão de pranchas de um comic) filtrada pela memória da Antiguidade, ou não estivéssemos perante uma re-imaginação da Anábase de Xenofonte – que narra a Retirada dos Dez Mil, um grupo de soldados gregos em campanha no império persa e obrigado a fugir de um território hostil –, já de si o modelo para o romance de Sol Yurick que o filme adapta.


Não faltam as sereias tentadoras nem os ogres pérfidos para reforçar esse pendor mitológico do que é também um musical velado (veja-se a genial sequência de abertura): se as lutas de gangs lembram bailados é porque o elenco de desconhecidos vinha maioritariamente do mundo da dança. Nesta síntese perfeita de alta e baixa cultura, atinge-se uma depuração próxima de um poema haiku. Quando, já perto do final, os jovens protagonistas à margem da sociedade se cruzam com alguns adolescentes «normais», a troca de olhares e gestos diz tudo sobre o abismo que os separa sem necessidade de pedagogismos moralistas. Momento inolvidável, como tantos outros deste arrebatador e lacónico «western urbano».

 

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Talvez já se tenha percebido que aquele que é o género americano por excelência é também o preferido de Hill e a razão (à semelhança de John Carpenter) pela qual quis fazer cinema. E assim chegamos a "The Long Riders/O Bando de Jesse James" (1980) – dia 14; 18h30 – um dos últimos grandes westerns do século XX e o seu filme mais peckinpahniano. Não só pelos temas – amizade, honra, traição, camaradagem, homens fora de tempo – como pela evocação explícita do totémico "Wild Bunch" (1969), num naturalismo apenas estilhaçado pelo tratamento da violência (outra constante hilliana), com recurso à câmara lenta típica de Peckinpah (mas Hill também falou de Kurosawa e Jean Vigo...) não para estender a realidade mas para abrir a porta ao pesadelo, como atesta a dimensão onírica e rarefeita da revolucionária sequência (dessincronização apoteótica entre som e imagem) do massacre do bando de anti-heróis. O realizador escolheu quatro clãs de irmãos – David, Keith e Robert Carradine; James e Stacy Keach; Randy e Dennis Quaid; Nicholas e Christopher Guest – para sublinhar o tema central da família (em sentido estrito e lato) e do apego à terra (a ligação entre as personagens e os cenários verdejantes do Midwest é das coisas mais espantosas aqui), propondo uma visão elegíaca de rebeldes que lutam por uma causa perdida (a do Sul pós Guerra Civil) e assumem a dimensão folclórica de lendas. Magnífico exemplo, lírico e sem pingo de sentimentalismo, da «poética dos perdedores» tão cara a Hill, a sucessão de vinhetas «ritualísticas» – o assalto, o baile, o funeral – deste midwestern consubstancia-se num comentário enviesado às convenções do género (evocando pelo caminho Ford, Nicholas Ray e Samuel Fuller), até ao lancinante final a bordo de um comboio, a fazer raccord com o início de "Hard Times".


Foi também neste filme que se deu o encontro marcante e duradouro com a música de Ry Cooder, prolongado no claustrofóbico "Southern Comfort" (1981), possível alegoria do Vietname nos bayous do Louisiana que encerra uma trilogia não oficial de estudos de grupos masculinos. Prolífico e com a reputação de action auteur consolidada, Hill seguiu então da periferia para o centro, em direcção ao mega-êxito de "48 Hrs." (1982). O realizador estava no topo do mundo, mas depois da aclamação veio a rejeição, ao aproveitar a carta-branca e a absoluta liberdade concedida para se atirar a um projecto pessoalíssimo que redundou num fracasso comercial e, posteriormente, se tornou um celebrado cult movie: "Streets of Fire/Estrada de Fogo" (1984) – dia 14; 21h30. Fábula rock 'n' roll retro-futurista e obra-prima absoluta, esta epopeia através da noite povoada por arquétipos e a raiar a abstracção é o mais perto que Hill esteve de atingir o seu ideal de um cinema «puro». Ode à adolescência pintada com as cores feéricas dos néons (deslumbrante fotografia de Andrew Laszlo, ele de "The Warriors") e ambientada num qualquer limbo não identificado (another time, another place, rezava a publicidade) que funde elementos dos 50s e dos 80s, cruza um sem-número de géneros e influências, do musical ao sempiterno western, dos biker movies ao melodrama com pozinhos de FC, do noir à sombra tutelar dos comics, num turbilhão de imagens que parecem arremessar-se umas contra as outras (prodigiosos vinte minutos iniciais). Muito à frente do seu tempo, esta série B em ponto grande, simultaneamente satírica e genuína, tem o seu etos plasmado nos títulos das canções de abertura e fecho: Nowhere Fast e Tonight Is What It Means To Be Young. Nunca se filmaram carros e armas assim. Um filme e um cineasta em estado de graça.

 

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O flop desta súmula definitiva de tudo o que é hilliano foi um duro golpe para o realizador, que, lambendo as feridas, se refugiou em encomendas (o divertido "Brewster's Millions", de 1985). Mas mesmo no contexto de uma indústria irremediavelmente alterada (o sonho da Nova Hollywood esfumara-se há muito), Hill nunca deixou de perseguir as suas obsessões, dando continuidade a um universo singular plasmado na repetição de rostos como os de Nick Nolte, Keith Carradine ou Bruce Dern e de uma galeria de maravilhosos secundários encabeçada por James Remar, David Patrick Kelly e Brion James.


Prova disso é "Red Heat/Inferno Vermelho" (1988) – dia 15; 15h –, nova declinação do buddy movie cristalizado na perfeição em "48 Hrs.", aplicando com perícia a mesma receita de acção doseada com humor e a lógica de pólos contrários, já não a um nível meramente individual mas nacional: em vez de um branco e de um negro, um russo e um americano. Sob a capa de um entretenimento polido, borbulha uma saudável perversão, apresentando um soviético empedernido imune aos encantos do capitalismo, que se torna o modelo a emular pelo homólogo americano. Ou seja, uma variação sobre o fabuloso "Ninotchka" (1939) de Lubitsch, com Arnold Schwarzenegger a fazer as vezes de Greta Garbo... A sedução é agora invertida, com a fria determinação russa a conquistar o laxismo americano, no que Hill descreveu como uma história de amor, feita de oposições e paralelismos, entre dois polícias pouco ortodoxos. Mesmo em época da glasnost (foi a primeira produção americana a rodar na Praça Vermelha de Moscovo) e com a Guerra Fria a esmorecer, convenhamos que não deixa de subverter q.b. as regras de masculinidade arreigada do thriller, sempre tão conotado com pulsões direitistas. O filme vive dessa engenhosa paródia das relações Ocidente-Oriente e do choque entre a rigidez de Arnie (com a sua persona humanizada e demonstrando pela primeira vez inusitados dotes cómicos) e o charme desleixado de James Belushi. Isso e aquela trepidação muito hilliana (ainda que numa vertente mais «maquinal») nascida da conjugação de corpos e objectos num mesmo enquadramento, uma fisicalidade onde impera um rigoroso sentido de ritmo e de «geografia» da acção.

 

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Os ecos da memória hollywoodiana nunca deixaram de pairar sobre Hill – pense-se no conto (a)moral de "Trespass" (1992), actualização high tech e hip-hop d' "O Tesouro da Sierra Madre" (1948) de Huston, à luz das tensões raciais prestes a deflagrar com o caso Rodney King –, não espantando portanto que tenha aproveitado a breve ressurreição do western nos anos 90 para regressar a este com dois dos melhores produtos dessa vaga. Ao revisionismo de "Geronimo: An American Legend" (1993), sucedeu-se o crepuscular "Wild Bill" (1995) – dia 15; 18h30. Impulsionado pela majestosa interpretação de Jeff Bridges, constrói-se como um retrato impressionístico do lendário pistoleiro Wild Bill Hickock contado através de uma intricada estrutura de flashbacks dentro de flashbacks (com flashforwards e doses de onirismo a preto e branco à mistura) que desfia um rol de episódios por onde perpassa o fascínio da violência como uma das pedras institucionais da América. Adaptando um romance e uma peça teatral, fica como uma meditação, fragmentada e de contornos edipianos, sobre as noções de mito e celebridade corporizadas num homem torturado, envelhecido e possivelmente suicidário condenado a representar uma ideia de si próprio que a realidade desmente.


A segunda parte do filme parece ensaiar a participação de Hill em "Deadwood" (2004), série precursora da propalada actual «idade dourada» da TV e para a qual assinou o episódio-piloto. E se se chegou a temer que o realizador ficaria desterrado no pequeno ecrã (a premiada mini-série "Broken Trail", de 2006) após tantos insucessos de bilheteira que lhe granjearam o epíteto de «autor maldito» (depois de dezassete filmes em quase outros tantos anos, média notável), o mergulho na escuridão humana de "The Assignment" (2016) – objecto inclassificável e contra-corrente, onde tanto cabem questões de género e identidade como alusões a Shakespeare e a Poe, tudo embrulhado num arrojo visual intocado – só pode ser motivo de regozijo. O veterano mantém as virtudes intactas. Que venham mais aventuras.


Vasco T. Menezes

 

 

 

 

 400 Hard Times

 

13 Setembro | Sexta - 21h30

O LUTADOR DE RUA (Hard Times) – 1975, 94' M/18
Durante a Grande Depressão, Chaney, desempregado, vagueia de comboio pelos Estados Unidos da América procurando sobreviver como pode e sabe, envolvendo-se no submundo das lutas de rua. Conhece Speed, um ávido apostador, que reconhece o seu talento com os punhos e que se torna seu empresário. Juntos viajam para Nova Orleães para organizar um combate. Speed pede dinheiro emprestado a gangsters para apostar na vitória de Chaney mas perde tudo o que ganha ao jogo. Chaney terá que lutar com Street, um temível adversário, para saldar a dívida de Speed e arriscar tudo o que ganhou.
Com Charles Bronson, James Coburn, Jill Ireland, Strother Martin e Michael MacGuire

 

400 The warriors 3

 

14 Setembro | Sábado 15h00

OS SELVAGENS DA NOITE (The Warriors) – 1979, 89' M/18
Nova Iorque, 1979. A cidade é dominada pelos gangs que guerreiam entre si e com a polícia. Cyrus, líder dos Gramercy Riffs, declara uma trégua e reúne todos os gangs no Bronx entre os quais se encontram os The Warriors, provenientes de Coney Island. Durante a assembleia Cyrus é assassinado e tudo aponta para que tenham sido os The Warriors os responsáveis. Em fuga de regresso a casa, enquanto tentam provar a sua inocência, o líder e os seus discípulos ver-se-ão obrigados a lutar pela sobrevivência pondo em causa os valores que os juntaram e aprendendo, inclusive, o significado de lealdade.
Com Michael Beck, James Remar, Deborah van Valkenburgh e David Patrick Kelly

 

400 The Long Riders

 

14 Setembro | Sábado 18h30

O BANDO DE JESSE JAMES (The Long Riders) - 1980, 95' M/18 - Legendado em espanhol
A conhecida quadrilha de foragidos James/Younger é conhecida por roubar bancos, comboios e diligências com tal audácia que acabam por se converter em heróis para muitos. Mas quando a poderosa agência de detetives Pinkerton promete encontra-los e pô-los atrás das grades terão que se defrontar com um inimigo implacável que não se deterá ante nada até alcançar o seu objetivo: prisão ou morte de todos. Só os laços que os unem poderão salvá-los possibilitando um final para a sua perigosa aventura.
Com Stacy Keach, David Carradine, Dennis Quaid e Christopher Guest

 

400 Streets of Fire

 

14 Setembro | Sábado 21h30

ESTRADA DE FOGO (Streets of Fire) – 1984, 90' M/12
A reconhecida cantora Ellen Aim regressa à sua cidade natal para um concerto e é raptada pelos Bombers, um gang violento liderado por Raven Shaddock. Tom Cody, antigo namorado de Ellen, recebe uma mensagem da sua irmã Reva pedindo-lhe que volte à cidade para a resgatar. Juntamente com o produtor e atual namorado da cantora, Billy Fish e com a ex-soldado McCoy, Tom enfrenta a violência dos gangues para devolver a liberdade a Ellen.
Com Michael Paré, Diane Lane, Willem Dafoe, Rick Moranis, Amy Madigan e Bill Paxton.

 

Red Heat 3

 

15 Setembro | Domingo 15h00

INFERNO VERMELHO (Red Heat) – 1988, 106' M/12 - Legendado em espanhol
Ivan Danko é um polícia russo que vê o seu parceiro morrer às mãos de Viktor Rostavili, um barão da droga que consegue escapar para Chicago. Decidido a conseguir a sua extradição Danko viaja para os Estados Unidos após saber que o detetive Art Ridzik capturou Rostavili. Quando este escapa novamente os dois agentes iniciam a perseguição em conjunto por toda a cidade. Será que conseguirão por de lado todas as suas diferenças para alcançar o objetivo comum de capturar Rostavili?
Com Arnold Schwarzenegger, Jim Belushi, Laurence Fishburne e Gina Gershon

 

400 Wild Bill

 

15 Setembro | Domingo 18h30

WILD BILL - 1995, 94' M/12
Junto à sepultura de James Hickok, Charley Prince, amigo de longa data de Hickok, relembra como surgiu o lendário Wild Bill que marcou a sua época vivendo no limite e a paixão que viveu com Susannah Moore que o conduzirá à tragédia. Um misterioso forasteiro chega a Deadwood e anuncia que só irá embora depois da morte de Wild Bill. Pode o confronto entre os dois ser o resultado do grande amor que Hickok que nunca esqueceu?
Com Jeff Bridges, Ellen Barkin , John Hurt e Diane Lane

 

 


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