Conversas da República DESENVOLVIMENTO 707x1000 

 

 

 

 

 

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Fausto de Figueiredo nasceu no Concelho de Celorico da Beira, em finais de 1880. Em miúdo, tinha um enorme fascínio por comboios, que frequentemente observava do alto das penedias, sonhando que um deles o levaria um dia para uma vida de quimeras e aventura, em Lisboa.

E foi isso que aconteceu: aos 11 anos fugiu de casa dos pais e viajou para Lisboa, com os bolsos vazios, é certo, mas com a cabeça cheia de sonhos. Vinte anos depois, Fausto de Figueiredo tinha «inventado» o Estoril e lançado, em 1916, a primeira pedra para a construção do Casino. Faz agora, exatamente, 100 anos.

Fausto de Figueiredo é dono de um percurso de vida extraordinário. Os primeiros tempos em Lisboa, sozinho, com 11 anos, foram vividos num ambiente de grandes dificuldades, que contrastava com a vida em casa dos pais. Mas nunca desistiu. Sobrevivia à custa de pequenos trabalhos e, acima de tudo, nunca abdicou de aprender, de estudar e de encontrar nas bibliotecas de Lisboa as respostas para as questões que o assaltavam.

Tendo ultrapassado de forma heroica os anos mais cinzentos da sua infância lisboeta, Fausto de Figueiredo arranjou emprego na Baixa, como ajudante de farmácia. Um emprego que lhe terá moldado o gosto pela farmacopeia e levado a frequentar a Escola Superior de Farmácia de Lisboa, licenciando-se em 1904 com elevada nota, facto que não impediu que continuasse a trabalhar na Farmácia Veiga, da Rua dos Retroseiros.

No 1º andar do prédio da farmácia funcionava o escritório de um famoso e rico proprietário em São Tomé, José Ferreira do Amaral. Gostava muito de conversar com aquele rapaz aventureiro, que tinha fugido de casa dos pais ainda criança para procurar uma vida melhor, mais consentânea com as suas ambições. Parecia-lhe um jovem determinado, de rara vontade e gosto pelo trabalho, destemido, ambicioso, visionário: as características, afinal, dos grandes homens de negócios.

Fausto de Figueiredo viria a casar com a filha do milionário, em Maio de 1910. Talvez pelo fascínio que, desde criança, sentia por comboios foi entretanto trabalhar para a CP, onde a sua perspicácia e ampla visão depressa foram notadas, guindando-o a membro do Conselho de Administração e, pouco depois, a Presidente.

Com uma situação financeira já desafogada, compra então casa no Monte Estoril, onde fixa residência, por serem bons ares para os problemas pulmonares de sua Mulher, Clotilde Ferreira do Amaral. E foi nessa altura que fez muitas viagens pela Europa, conhecendo de perto as mais famosas estâncias de turismo das elites europeias. E logo a sagacidade do seu espírito empreendedor o fez sonhar com a criação em Portugal de uma estância turística de luxo, como aquelas, e de grande nível mundial.

De regresso a casa, observou melhor o vasto pinhal inexplorado que descia até perto de uma praia deserta, agora chamada do Tamariz, e às antigas termas, servidas por um apeadeiro dos Caminhos-de-Ferro. E a visão do sonho fê-lo mergulhar num projeto gigantesco.
Logo a seguir à implantação da República, entre Março de 1911 e Junho de 1914, foi Presidente da Câmara Municipal de Cascais, pela primeira vez, o que lhe permitiu conhecer muito bem toda a realidade do Concelho. Criou uma Sociedade com o seu cunhado, Augusto Carreiras de Sousa e comprou uma extensa propriedade então conhecida por Quinta do Vianinha, que foi o primeiro momento da concretização do seu sonho.
A Europa vivia nessa altura os horrores da Primeira Grande Guerra, o que condicionou um pouco o desenvolvimento do seu projecto. E depois, quando quase todos julgavam que nunca mais a Europa poderia viver de novo tais horrores, eis que Hitler invade a Polónia e pega fogo a uma nova guerra, ainda pior do que a primeira
Uma guerra que chacinou muitos milhões de pessoas e que encurralou milhares e milhares de refugiados que procuravam, em pânico, um meio de escapar ao extermínio.

Muitos deles, na sua maior parte judeus, viriam a refugiar-se em Portugal, nação neutral e de povo acolhedor, na esperança de conseguirem obter um visto e comprar uma viagem para os Estados Unidos.

Outros refugiados, porventura mais endinheirados e também com o sonho de partir para terras da liberdade, fixaram-se na zona do Estoril erguida por Fausto de Figueiredo, habitando ainda muitos descendentes desses refugiados a magnífica Costa do Sol, uma zona de clima ameno, gente hospitaleira e lugares de enorme beleza, que se transformou em lugar de exílio de príncipes, princesas e reis sem trono, de notáveis figuras públicas e de milhares de refugiados que diariamente se cruzavam com as dezenas de espiões dos dois lados da contenda que fizeram do eixo Lisboa/Estoril o mais importante e activo ninho da espionagem mundial daquela época.

Em absoluto contraste com as dificuldades por que tinha passado nos seus primeiros anos em Lisboa, Fausto de Figueiredo morreu muito rico, em Abril de 1950, na sua esplêndida mansão, no Estoril, erguida na avenida que tem hoje o seu nome, deixando uma obra tão notável quanto singular: deixou a Portugal e aos portugueses a Costa do Sol, que a fama universal do Estoril desde essa altura indelevelmente pontua.

São de Fausto de Figueiredo as seguintes palavras: «A transformação do Estoril constituiu, para mim, o maior sonho da minha vida e à sua realização me consagrei, julgando assim, prestar um serviço à minha Pátria»


 



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