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ANA CRISTINA LEITE

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ANA CRISTINA LEITE

 

My Heart is a V8

  


CENTRO CULTURAL DE CASCAIS, 30 NOVEMBRO A 9 FEVEREIRO 2020

 

 

 

A PINTURA

DE ANA CRISTINA LEITE

 

«Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia».

Manuel António Pina

 

O conhecido historiador de arte italiano Giulio Carlo Argan considera abusiva a crítica feita ao realismo e argumenta, na linha do que vai de Caravaggio a Courbet, que o realismo não significa aceitar passivamente a realidade, mas antes consiste em problematizá-la, procurando enfrentar o seu impacto sem recear que daí possa advir um choque ou vazio. Para Baudrillard o realismo é entendido como «a alucinante semelhança do real consigo mesmo» e a irrealidade não é mais a do sonho ou do fantasma, mas a parte enigmática do real que se vai desmoronando através da sua exibição.

A censura contra a imitação, que está na origem da cultura ocidental desde Platão, considera a arte como um mero espelho confinado a reproduzir indiferentemente todas as coisas, não havendo por isso espaço para a pintura ilusionista. Ora, o realismo vem precisamente colmatar a brecha deixada em aberto pelo real e quebrar o espelho narcisista de uma mimesis virada exclusivamente para a presentificação naturalista da realidade, ao colocar no mesmo nível onto-estético imagem e fotografia de modo a inserir ambas nos dispositivos de produção pictórica. A máquina foto-óptica e o realismo pictórico realçam, cada um à sua maneira, as formas, as forças e os valores considerados inestéticos ou não objectivos pelo regime naturalista da imagem.
A presente exposição de Ana Cristina Leite, intitulada My heart is a V 8, persegue meticulosamente a literalidade da imagem no modo como capta com eficácia o seu objecto de representação, sem nunca trocar o olhar da pintura pelo da técnica fotográfica procurando desta maneira introduzir em cada trabalho uma surpreendente atmosfera visual que oscila subtilmente entre os registos irreal, hiper-real e surreal. A artista pretende suscitar no olhar do espectador uma sensação de familiaridade e de estranheza em parte devido ao carácter fantasmático daquilo que na sua pintura irrompe como narrativa e ficção de um tempo e de um espaço atravessados por uma memória urdida de acontecimentos imprevisíveis. Estamos perante uma pintura que joga com a troca simbólica das imagens produzidas sob um horizonte fantasmático em que a sedução, o medo, o desejo, o perigo, a morte e a paixão integram um mundo efémero onde ser e aparência se desafiam mutuamente. É uma pintura que vai ao encontro do gesto e do desejo que habitam nos meandros da imagem abstracta do real, como acontece com alguns quadros como "Saturn Strip", "Mystery Plane", "Cheree", "Look Mom No Head", "Tear It Up" ou com "Iguana take a break in Tijuana".
Vemos aí rostos silenciosos de adolescentes desenhados em grande plano que se assemelham a figuras mentais absortas nos sonhos que elas próprias teceram à maneira de um diagrama cromático feito de linhas que se confundem com a vegetação e planos transparentes que evocam ambientes aquáticos.
Nesses rostos parece haver reminiscências de um tempo híbrido que flui entre a imagem movimento do cinema e a imagem pulsional da vida, o que aliás é um traço pertinente na obra de Cristina Leite.

Há um rastro de sedução entrecortada por lâminas de sombra e focos de luz que cintilam no escuro de algumas telas, como no caso do excelente trabalho intitulado "Glitter soul", que oferece algumas pistas simultaneamente verdadeiras e falsas que nos podem conduzir a um mundo desconhecido, senão mesmo traiçoeiro, devastado apenas pelo silêncio inconfessável de uma culpabilidade feminina. Também aí encontramos, tal como noutros trabalhos de Ana Cristina Leite, uma aura "country" oriunda de uma América desterritorializada sem fronteiras em que a vida faz parte da "filmagem" de uma pintura encenada fora e dentro de si mesma. É isso que acontece com o quadro "Glitter Soul" onde se vêem fardos de palha espalhados no chão e pequenas bolas leitosas de luz a entrar pelas frinchas do celeiro construído com pranchas velhas de madeira carunchosa, uma pintura que parece falar uma língua visual muda, sem legendas nem heróis, apenas feita de materiais simples e alimentada por uma luz branca fantasma saída de uma zona misteriosa.

Na verdade o onirismo é uma força inconsciente do pensamento, neste caso a imagem de um pensamento visual que vai ao encontro da pintura e da multiplicidade das imagens que fluem à superfície da tela como se algo de impensável e de irrepresentável pudesse acontecer. My heart is a V 8 é o título desta exposição e de um quadro que encerra uma história de amor e de morte que Ana Cristina Leite viveu e pintou. O carro pode ser visto, por isso, como a metáfora de uma perda ou a recriação enigmática de um objecto estético.
Desassossego, errância, desdobramento, memória e sedução são algumas das Ideias que podemos contemplar nas telas desta surpreendente exposição, um pouco à maneira do poema de Pessoa: «Esse comboio de corda que se chama coração».

 

CARLOS FRANÇA
Novembro 2019

 

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