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AVELINO SÁ

755 AVELINO SA

 

 

 

 

 

AVELINO SÁ

 

As Minhas Propriedades

 


CENTRO CULTURAL DE CASCAIS, 26 OUTUBRO DE 2019 A 2 FEVEREIRO 2020

 

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No Bairro dos Museus, as artes plásticas ganham valor, reconhecimento e novos públicos, fruto de uma aposta clara da Câmara Municipal de Cascais e da Fundação D. Luís I na qualidade de uma programação cultural diversificada e pensada para todos.

Mostramos o trabalho de artistas nacionais e internacionais, os emergentes e os mundialmente reconhecidos, aos visitantes – munícipes, estudantes, famílias e turistas - de todas as idades.

É disso exemplo a exposição que apresentamos de Avelino Sá, artista plástico reconhecido, com um percurso artístico destacado em Portugal, Holanda, Alemanha, Espanha, Brasil e Cabo Verde, entre outros países.

Avelino Sá presenteia-nos com palavras e fragmentos inscritos na cor de materiais diversos, elevando-os a criações poéticas únicas. Eis "As Minhas Propriedades", assim nos revela o artista ao adotar este título para a exposição no Centro Cultural de Cascais, refletindo as obras expostas duas décadas de trabalho do artista e reafirmando, caso fosse necessário, que o talento não tem limites em termos de criação artística: esta é, sem dúvida, uma das principais exposições do ano em Cascais.

Avelino Sá expôs pela primeira vez aos 21 anos, em 1982, e não mais parou. A sua obra integra hoje coleções públicas e privadas, sendo motivo de reflexão para dezenas de críticos em textos publicados em catálogos e na imprensa. É naturalmente um privilégio poder dar a conhecer, em Cascais, o trabalho deste artista plástico.

Com esta mostra, e a exemplo do que é nossa prática, aliamos a Cultura à Educação através das atividades do Serviço Cultural e Educativo do Bairro dos Museus: visitas orientadas, ateliês ou simplesmente crianças, jovens e adultos que interpretam o que veem e a partir dessa interpretação criam os seus desenhos, pinturas e instalações.

 

Carlos Carreiras
Presidente da Câmara Municipal de Cascais.

 

 

500 HB 8742

NO FIO DA BRUMA, 2015 | Encáustica sobre madeira, 200x150 cm

 

 

Passagem

 

Ao caracterizar o seu trabalho, que nos últimos trinta anos atingiu um grau de variabilidade e heterodoxia exorbitante, o artista norte-americano Dennis Oppenheim justificava-se dizendo que não era um "artista de assinatura". Para este autor, um "artista de assinatura", classificação aqui claramente pejorativa, é aquele que se comporta, que mantém "uma Gestalt de baixo nível", onde o corpo de trabalho se sucede pacificamente a outro, o que leva a que a familiaridade assim constituída permita uma melhor integração no mercado e na realidade museológica.

Este tipo de asserção bate certo nos casos em que esta imagem de marca se evidencia enquanto defesa de fragilidade criativas ou na fundamentação de estratégias especulativas por parte dos artistas. Contudo, e nalguns casos, a coerência interna dos processos criativos ancora-se justamente num eterno retorno a questões primordiais, numa espécie de vertigem especulativa que não permite errâncias criativas mais ou menos fugazes. Aí o território é sobre calcorreado, em camadas que se vão sobrepondo, desvelando ou entrelaçando. É este o território de Avelino Sá.

Se nas bandeiras de Jasper Johns, as mais famosas encáusticas do século XX, o que se revela na transparência do material é uma arqueologia do presente – na medida em que o artista deixa nalgumas versões desta série paradigmática que fragmentos de jornal da base preparatória dos trabalhos se imiscuam no plano visual -, nas obras de Avelino Sá o tratamento desta técnica milenar ancora-se em pressupostos conceptuais distantes do carácter eminentemente derisório do mestre americano. Para Avelino Sá a utilização da encáustica representa a possibilidade de oscilar entre a pintura, o desenho e a escultura, isto se pensarmos nas incisões que revelam o preto de base como elementos que, rompendo a superfície pictórica, vão ampliar a percepção da sua complexidade estrutural.

 

Tal prática revelou-se fundadora de todo um processo que o artista começou a desenvolver em pequenas caixas e que atingiu o seu momento de maturidade plena na exposição "Restos do Olhar" realizada na galeria Quadrado Azul no Porto em 1996. Aí, conduzido pelas palavras de Paul Celan, o artista reflectia sobre a (im)possibilidade da imagem traduzir o indizível, tal como o poeta tangencial e metaforicamente abordava o Holocausto como momento da materialização do absurdo no real. A palavra, a sua estrutura semântica, a força de conceitos e a abertura de planos onde do branco irrompiam linhas-cicatrizes para desenhar formas primordiais, como cálices, arvores ou caminhos eram aqui elementos mínimos que serviam como indicadores de uma humanidade ainda possível na cegueira de um branco que tudo ofusca, antítese complementar da cegueira do preto que lhe está na base.

A travessia do artista fixou-se em referentes culturais onde pontificam autores como o referido Paul Celan, Robert Walser ou os clássicos ocidentais e orientais. Este transito, liberto de constrangimentos ilustrativos, constitui antes uma cartografia possível por temas que poderíamos classificar do seguinte modo: Busca/Passagem/Perda. Esta trilogia estende-se literalmente a uma matriz geográfica e temporal: daí que as suas pinturas e os seus desenhos nos remetam para a ideia de mapas de lugares e tempos perdidos nos confins das mais singulares reminiscências culturais. No caso da presente exposição, a série de trabalhos intitulada "Arqueologias" remete exactamente para a ideia de um levantamento arqueológico que estratifica uma malha de terreno onde se vislumbram resquícios e sinais de uma civilização antiga. No contexto da exposição, pinturas como "Olímpia", "Vozes" ou "Arqueológico", tanto remetem para Homero, como para o poeta alexandrino Kavafis. Assim, o que este artista faz é tornar actuais e actuantes temas que relevam de um substrato clássico que advém precisamente da sua intemporalidade.

Poder-se-ia dizer que esta seria uma estratégia de alienação do real, da contemporaneidade e dos problemas que assombram o nosso quotidiano. Porém, aquilo que me parece verdadeiramente importante constatar é que em certo sentido a actualização de inquietações arquetípicas acaba por poder representar um dos mais radicais gestos de confronto com o presente. Isto é, se alguns artistas preferem situar de forma mais ou menos concreta a sua interpelação do real, nomeadamente com a eleição de eventuais acontecimentos históricos, políticos ou sociais de um passado recente, ou mesmo do presente imediato, isto não significa que a relação que Avelino Sá escolheu manter com o seu tempo, ainda que mediada por vozes temporalmente tão distantes, não deixe de ser actual. Aliás, isso será exactamente aquilo que caracteriza um clássico e daí a sua eleição como fonte referencial: a sua capacidade de nos obrigar a pensar o presente independentemente do seu contexto de criação.

 

A circularidade dos temas acima referidos – Busca/Passagem/Perda -, evidencia o carácter de equilíbrio instável que estas obras desvelam. Os planos compositivos assentam sobre fundos que não sabemos imediatamente se interpretar como superfícies apresentadas em profundidade, ou planos mais ou menos flutuantes de representações para-cartográficas. Este espaço ambíguo é, também, o espaço da não representação, da abstracção como metáfora do indiscernível. Precisamente porque aqui a noção de passagem é central e ela pontua sempre o trânsito delimitado pela busca e potencial perda. Assim, este movimento ganha uma espessura existencial, que é determinada pela vontade do artista reflectir o presente. Não se procure nestes trabalhos uma relação pacificada do autor com a sua envolvente. Aquilo que estas pinturas e os desenhos que as acompanham revelam é, ainda assim, a possibilidade (e necessidade, dir-se-ia) de nos movermos livremente ainda que esse caminho possa desembocar num beco sem saída. O labirinto só será vencido se o movimento se der: isto é, o labirinto é o grande teste, e o seu percurso constitui um processo iniciático vital. Sem tempo, sem companheiros de viagem facilmente indiciáveis. Assim se apresentam estas obras, que escapam a modas mais ou menos voláteis e que dificilmente se categorizam em práticas artísticas coevas. De memória recente e felizmente cada vez mais actual, talvez só a influência de Álvaro Lapa mereça ser aqui referenciada – exemplo maior de um artista sem tempo, sem contexto, que não o das suas filiações espirituais militantes.

 

Miguel von Hafe Pérez (2008)
Museu Amadeo de Souza-Cardoso - Amarante

 

500 HB 8745

OLÍMPIA, 2007 | Encáustica sobre madeira, 150x200 cm

 


Avelino Sá (1961, Santa Maria da Feira), é licenciado em Artes Plásticas-Pintura pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. Vive e trabalha no Porto. Expõe regularmente desde 1982 e em 1987 teve a sua primeira exposição individual. Além de Portugal, expôs na Alemanha, Espanha, Holanda, Brasil e Cabo Verde. Foi Prémio Amadeu de SouzaCardoso em 2013. As suas obras integram coleções públicas e privadas, designadamente o Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Porto, o Museu Extremenho e Ibero-americano de Arte Contemporânea (MEIAC), Badajoz, o Museu Berardo, de Arte Moderna e Contemporânea, Centro Cultural de Belém, Lisboa, o Museu Municipal Amadeo de SouzaCardoso, Amarante, Fundação Ilídio Pinho, Porto. De entre as exposições individuais, destacam-se, nos últimos anos: Arqueologias de uma Escrita em Rotação, Quase Galeria, Porto (2017), O Som do Orvalho, Galeria Fernando Santos, Porto (2017), Desde o Começo Não Há Nada, Museu Alberto Sampaio, Guimarães (2015) e No Caminho das Montanhas, Galeria Fernando Santos, Porto (2012); de entre as exposições coletivas: 25º Aniversário da Galeria Fernando Santos, Porto (2017), Rrevolução, Colégio das Artes, Universidade de Coimbra (2017), Passagens, Coleção de Serralves, Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, Matosinhos (2017), Diálogo, Avelino Sá/Cristina Mateus, Galeria Fernando Santos, Porto (2015), Rota das Catedrais – Sete instâncias de transcendência, Sé de Viana do Castelo (2015), Modern & Medieval Camuflado, Museu Grão Vasco, Viseu (2015), 9ª Edição do Prémio Amadeo de Souza-Cardoso", Museu Amadeo de Souza-Cardoso, Amarante (2013), Moments of Arte, Galeria Gomes Alves, Guimarães (2012) e Coleção Maria José Laranjeiro, Centro Cultural Vila Flôr, Guimarães (2012). Bleistiftgebiet – Território do Lápis, Espaço Adães Bermudes, Alvito (2018). Sangue branco na sombra do presente, Artistas Unidos – Teatro da Politécnica, Lisboa (2019). Tem umas dezenas de textos críticos às suas obras, em catálogos e na imprensa escrita.

 

 

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