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ANTONIO LOPEZ

  

Uma linguagem visionria

 


CENTRO CULTURAL DE CASCAIS, 5 JULHO A 13 OUTUBRO DE 2019

 

  

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Visionary Writing - Drawings, Films, Photographs, de Antonio Lopez, estar patente no Centro Cultural de Cascais, entre 5 de julho e 12 de outubro. Comissariada por Anne Morin, a mostra explora diferentes aspetos da obra de um autor que foi apelidado pelo The New York Times como o "maior ilustrador de moda do mundo". A organizao da Fundao D. Lus I e da Cmara Municipal de Cascais, no mbito da programao do Bairro dos Museus.

 

Anne Morin dirige a diChroma photography, empresa madrilena especializada na produo e na itinerncia de exposies fotogrficas internacionais, tendo j comissariado exposies de artistas como Julian Schnabel, Jessica Lange, Lua Sarah, Tony Oursler, douard Boubat ou Malick Sidib. A exposio Visionary Writing - Drawings, Films, Photographs apresentada, em estreia mundial, no Centro Cultural de Cascais.

 

 

 

Queria desenhar a conscincia de existir e a passagem do tempo

Henri Michaux, Desenhar a passagem do tempo

 

 

Ao escutarmos o primeiro andamento da Sinfonia N 41 de Mozart, a Sinfonia Jpiter, ficamos de imediato impressionados com a sua estrutura binria, nitidamente definida, e as tonalidades diametralmente opostas e at contraditrias.

Mozart compe o pano de fundo para este contraponto atravs de uma interao subtil de formas, ritmos e cores alternados. Cria uma ligao entre algo flutuante e leve e algo denso e agitado, que troa e ribomba e, no auge da tenso, do seu paroxismo, desencadeia a simetria intrnseca da totalidade da pea. A exuberante fuga ergue-se para marcar a modulao serena de um andante cantabile, decrescendo em seguida para um silncio breve, antes de se elevar nos ares uma vez mais.
Esta estrutura foi aplicada com preciso nos trs andamentos seguintes. Mozart concluiu a ltima sinfonia a 10 de Agosto de 1788, pouco antes da sua morte. Constitui o manifesto da linguagem musical do compositor, a construo impossvel de definir, e transporta-nos ao sublime desde os primeiros compassos.

Se, por qualquer subterfgio hbil, nos fosse dado observar a Sinfonia Jpiter do seu interior, revelar-nos-ia a incomensurvel vivacidade criativa de Mozart, as suas linhas ssmicas, a exaltao e o bramido das violentas erupes, que pode recair subitamente na mais extrema apatia. Por trs da impetuosidade, da paixo que era a sua circunstncia, se retirarmos as diferentes camadas para visualizar a imensa confuso, descobrimos algo trgico, sombrio e obscuro que o prprio Mozart descreveu como "um certo vazio doloroso para mim um anseio impossvel de satisfazer que, por isso, no tem fim."

O mesmo anseio provavelmente, tambm impossvel de satisfazer perseguia Antonio Lopez, o mesmo brilhantismo fogoso, a total despreocupao evidente e uma agitao estranha, que seriam fulcrais no seu trabalho. O mesmo anseio talvez o tenha impelido a criar, sem preldio nem incio, um conjunto de obras verstil que se apropriava de tudo e acabaria por destrui-lo. Porque, no fundo, a substncia do seu trabalho, incorporada na textura, o tempo; o tempo acumulado enquanto passa, "que avana, foge, desabrocha, se esboroa e expe demasiado" ; o tempo que se esgueira, cobardemente, pela porta dos fundos, antes de o espetculo terminar.

 

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Antonio Lopez and Cathee Dahmen, New York City c. 1965
Gelatin Silver Print, Photo by Richard Avedon
 

 

Antonio Lopez, que nasceu em Porto Rico em 1943, continua a ser uma das figuras das dcadas de 60 a 80 mais importantes e notveis do mundo da moda. Com a tenra idade de sete anos, a famlia mudou-se para Nova Iorque, a sua cidade adoo e que mais tarde se tornaria o imenso palco do seu trabalho.
Estudou no Fashion Institute of Technology, onde conheceu o seu companheiro, Juan Ramos, que exerceu uma profunda influncia na totalidade da sua obra ao apoiar a produo criativa e a ascenso de Antnio na hierarquia da moda.

A partir dos anos 60, Antonio Lopez trabalhou como ilustrador de moda e os seus desenhos eram publicados em revistas como a Vogue, Elle, The New York Times e a Harper's Bazaar. Em Nova Iorque, colaborou com artistas e editores, entre os quais Andy Warhol e Diana Vreeland. Em 1969, mudou-se para Paris, onde trabalhou, durante alguns anos, com Yves Saint-Laurent e Karl Lagerfeld, tornando-se num cone, tal como as "Antonio's Girls" ("As raparigas do Antonio"), no crculo da moda de Paris
Antonio passou a ser o seu epnimo. Liberto do nome de famlia, criou o seu prprio nome. Esta famlia tambm era, em certos aspetos, a sua corte, integrando musas e modelos, como Jerry Hall, Grace Jones e Jessica Lange, cujas carreiras impulsionou sem que elas o soubessem, e inmeros amigos, amantes e artistas que gravitavam volta dele, duplos ntimos encarregados de ocultar a sua solido e de o aliviar da sua sombra como Peter Schlemihl no conto de Chamisso.

Aps ter regressado a Nova Iorque, em 1975, trabalhou incansavelmente em sucessivas campanhas publicitrias, perpetuando a inrcia de uma deslumbrante carreira, abruptamente interrompida pela morte sbita, quando contava apenas 42 anos. Antonio Lopez morreu de SIDA, a 17 de maro de 1987, em Los Angeles, legando-nos um vasto acervo de obras. A sua mensagem esttica e retrica iria dissolver-se nas profundezas da histria da arte.
A moda era, em igual medida, o seu domnio e pretexto pretexto para exprimir a beleza, a sensualidade, a sexualidade, a vida e o tempo.

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Blue Water Series, Pat Cleveland and Grace Jones, Paris 1975
Kodak Instamatics The Estate of Antonio Lopez and Juan Ramos

 

 

O seu tempo.
Porque a moda, como Coco Chanel a descreveu, "no est presente apenas no vesturio. A moda est no ar, levada pelo vento. Sentimo-la. A moda encontra-se no cu e na rua." Antonio Lopez transmitia, incorporava e vivia a moda. Era uma questo de atitude e, possivelmente, de vida ou de morte. Porque, embora a morte o tenha levado prematuramente, todo o seu corpo irradiava vida. Uma vida fogosa, emocionante, arrebatada, luminosa, sempre impelida para o auge pela fora vital das suas capacidades criativas e uma necessidade irresistvel de ir em busca de alguma coisa sem se importar verdadeiramente em encontr-la.
A moda servia de pretexto a Antonio para criar formas, mas tambm para desconstruir linguagens a fim de lhes libertar o significado e para reconstruir o sentido por ele conferido, "o corpo intraduzvel dos idiomas" .

Desenhos, colagens, fotografias tiradas com uma Instamatic, polaroides, filmes. Tudo parece ter feito parte de um plano stendhaliano para reunir os eventos de uma experincia descontnua numa narrativa consensual. Na obra de Lopez, deparamo-nos com uma caraterstica tpica de Stendhal, que consiste na intertextualidade, como se uma linguagem, por mera proximidade, transformasse outras formas de linguagem que, por sua vez, a alteram. Tece estas linguagens juntas, criando passagens, geografias e espaos intermdios, onde o pensamento circula, como diria Michel Foucault. Construiu um mundo em expanso, do qual seria o senhor absoluto, e que invadiria o imprio de signos e significados, criando uma obra plural e complexa, at ao seu mago, fazendo com que o at ento ilustrador de moda se tornasse um pintor e visionrio, "O Pintor da Vida Moderna".

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ELLE Magazine, Paloma Picasso, 1973
Pencil on paper The Estate of Antonio Lopez and Juan Ramos
 
 

 

Quando desenha, com os olhos fixos no modelo, deixa-se arrebatar pelo inebriamento que s o momento presente proporciona; permite que o ritmo da sua respirao o domine; projeta-se num estado transitrio cujo nico resultado possvel ser a ausncia.
"Um suspiro, um silncio, uma palavra, uma frase, um estridor, uma mo, toda a figura do modelo, o seu rosto, em repouso, em movimento, de perfil, de frente, uma paisagem infinita, um espao exguo... e, a seguir, a fora ejaculatria do olho".

Embora imponha uma distncia da cmara jamais transposta, quando desenha aproxima-se o mximo possvel do modelo, agarra-o, prende-o, devora-o e deixa que a forma acontea, numa luta corpo a corpo irreal em que o trao se torna um simples sinal de prazer. E a fora do seu corpo encurralado estremece sob o impacto deste gesto, simples, mas nem retomado nem emendado. Trata-se, por vezes, de um gesto preciso e rpido, como se essa urgncia pudesse fazer com que alguma coisa acontecesse ou desaparecesse. Nesse momento talvez o desenho se torne "uma afirmao do eu, e uma recusa [...], uma espcie de ondulao do ser".

Porque na singeleza, na ausncia de pormenores e conciso do desenho, Antonio Lopez capta a temporalidade. Arquivou muitos destes "desenhos instantneos", tal como Rodin que, no ltimo perodo da sua vida, fazia esboos sem sequer olhar para o papel, registando tipos morfolgicos de corpos, atitudes e expresses a fim de fixar, semelhana de uma fotografia, a pose do modelo, tendo sempre o cuidado de reproduzir com rigor "toda a verdade".
Os desenhos instantneos de Antonio Lopez respondem a uma busca diretamente relacionada com a apreenso do tempo e no a uma esttica em si. Paradoxalmente, resolveu o problema de captar o momento atravs do desenho, no de fotografias polaroide e instamatic que dedicaria a outras digresses da linguagem.
Enquanto muitos dos seus desenhos e estudos evidenciam a noo de proximidade imediata, alguns deles tambm denotam o princpio da simultaneidade um princpio utilizado no teatro e na pintura desde a Idade Mdia. Pintores como Hans Memling, Nicolas Poussin e Antoine Watteau, cujas obras Antonio Lopez conhecia bem, recorrem a este processo para representar, no mesmo espao pictrico, episdios sucessivos de uma histria que narram, cronologicamente, a cena de atores em diversas situaes, como a sequncia de um filme. "

 

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"The Pants Uniform", Fashions of the Times / The New York Times Magazine, Susan Baraz, 1966
Pentel and cello-tak on paper The Estate of Antonio Lopez and Juan Ramos
 

 

"L'embarquement pour Cythre" ( Embarque para Ctera ), pintado em 1717, um dos quadros de Watteau mais representativos do referido princpio. Estes retratos interpretam-se da direita para a esquerda do quadro como Rodin descreveu:

"O que vemos em primeiro lugar (...) um grupo constitudo por uma jovem e o seu admirador. O homem traja uma romeira com um corao trespassado nela bordado, gracioso emblema da viagem que ele pretendia realizar. (...) ela contrape-lhe uma indiferena talvez fingida (...) o basto de peregrino e o brevirio de amor ainda jazem por terra. esquerda do grupo que acabo de referir, est um outro par. A amante aceita a mo que lhe estendem para ajud-la a levantar-se. (...) Mais longe, a terceira cena. O homem cinge a sua amante pela cintura para a levar. (...) Agora os amantes descem para o areal, e, (...) empurram-se, rindo, em direo barca; os homens j no precisam de recorrer a splicas: so as mulheres que se agarram a eles. Por fim, os peregrinos fazem com que as suas amigas entrem para a barca, que balana sobre a gua a sua quimera dourada, os seus festes de flores e faixas de seda vermelha. Os barqueiros apoiados nos seus remos esto prontos para os usar. E, j levados pela brisa, pequenos cupidos volteantes guiam os viajantes para a ilha azul que surge no horizonte."

Antonio Lopez recorreu sucessivamente a este processo em vrios desenhos, incluindo na reportagem da Newsweek sobre a msica Disco (1976), que ilustra os ritmos de dois bailarinos a moverem-se no espao, como um desenho cubista em que o tempo se divide em micro fraes e se organiza em torno de um eixo central. Ou na colagem para a Interview a revista fundada por Warhol que inclui Jacques de Bascher, Leon Talley e Karl Lagerfeld, cujo corpus dividido e matizado, de acordo com o princpio musical da variao, numa srie de fotografias Instamatic coladas no desenho, que criam um deslocamento diacrnico na imagem e uma dessincronizao. Como se a sequncia se expandisse para se converter numa manifestao dilatada do tempo.

 

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Antonio Lopez, Charles Tracy, and Pat Cleveland, New York City 1975
Kodak Instamatics The Estate of Antonio Lopez and Juan Ramos

 

 

 

Eric Rohmer, a propsito do seu ciclo de filmes baseados no princpio da variao, afirmou: "Concebi os Contos Morais como seis variaes sinfnicas. semelhana de um msico, vario o motivo inicial, abrando-o ou acelero-o, estico-o ou encolho-o, aumento-o ou depuro-o".

Encontramos o mesmo mecanismo em alguns desenhos de Antonio e, com frequncia, nas suas colees de fotografias polaroide e Instamatic, a maior parte das vezes dispostas em sequncias reais ou reconstrudas de nove imagens. Em seguida transpe as caratersticas especficas da linguagem cinematogrfica para outra essencialmente livre e aberta. E aqui que encena o que v e pensa.

E visto que um meio abandonado substitudo por outro, quando Antonio, num impulso, pega na sua cmara de filmar Super 8 para interpretar estados de esprito que escapam ao lpis, ao pincel ou caneta. Nos filmes, deixa-se levar pela improvisao e traz consigo a sua trupe num coup de thtre em que ele a testemunha oculta de peas de Molire e os seus companheiros personagens que se riem de tudo e troam da vida. Um palco, mimos, mscaras e uma dissonncia com a realidade, diria Antonin Artaud, constituem o segredo do teatro. Na obra de Antonio, esta dissonncia tambm o lugar em que tudo se articula; o lugar de uma grande solido interior no qual enfrenta o estranho, o maravilhoso e o inexplicvel, "no mago do seu ser, nas trevas, no inefvel, no inconsciente, na regio que o entendimento no alcana. Onde a eternidade penetra os dias" e continua a palpitar perante os nossos olhos.

 

Anne Morin

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

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