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Incio Outros Percursos CONVERSAS DA REPBLICA - EDUCAO

 

 Conversas da Repblica EDUCAO 707x1000

 

 

MRIO SOTTOMAYOR CARDIA

 

Mais do que poltico, jornalista, ensasta ou professor, M. Sottomayor Cardia foi um pensador, algum que desde muito novo privilegiou a reflexo e a anlise, sempre a par de um constante envolvimento na contestao ao regime salazarista e defesa dos valores da Liberdade e da Democracia.

Como algum um dia afirmou, a histria de Mrio Sottomayor Cardia no s a de um ator poltico influente, mas tambm a de um pensador poltico e filosfico de relevo na segunda metade do sculo XX portugus.

 

Formado em Filosofia pela Faculdade de Letras de Lisboa, dirigiu a ento influente revista Seara Nova, onde rompeu com o Partido Comunista, de que foi destacado militante ainda na clandestinidade, sem esconder publicamente a sua discordncia com uma certa viso dogmtica do mundo e dos seus problemas. A necessidade de interveno poltica levou-o a estar ento na gnese do Partido Socialista, de que foi fundador em 1973 na Alemanha, tendo-se tornado, aps o 25 de Abril, a par de Francisco Salgado Zenha, um dos seus principais porta-vozes.

 

figura franzina e aparentemente frgil correspondeu desde sempre uma enorme coragem moral e fsica. Exatamente a coragem que marcou a sua passagem pelo Ministrio da Educao em tempos difceis: a, contra a corrente, soube colocar alguma ordem num sistema que, em clara autogesto e anarquia, acompanhava a clere mudana de tempos, hbitos e costumes que o 25 de Abril provocou.

 

A sua passagem pelo gabinete da 5 de Outubro est vista ainda hoje: criou o ano propedutico (hoje o 12 ano), conseguindo assim "ganhar tempo" para reorganizar o ensino universitrio, lanou o ensino politcnico; criou o regime de numerus clausus e consumou a introduo das cincias sociais no ensino superior portugus, influenciando tambm a criao de novas instituies como a Universidade Nova de Lisboa.

 

A interveno poltica de Mrio Sottomayor Cardia foi sempre pautada por uma enorme independncia de esprito, por uma inquebrantvel e frrea necessidade de pensar pela sua prpria cabea, recusando espartilhos e dogmas condicionantes que marcavam ento muita da nossa chamada "intelligentsia".

 

Dez anos aps a sua morte, alunos, colegas, amigos, correligionrios e adversrios, contemporneos ou no, recordam-no como algum profundamente independente, srio, livre e decente. Como algum que tinha uma ideia para o Pas e que prezava a Liberdade, liberdade essa que pensou e defendeu como poucos.

 

 

 

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 Comemoraes do 1 de Maio em 1974

 

 

Mrio Sottomayor Cardia, por Carlos Leone

Mrio Augusto Sottomayor Leal Cardia (Matosinhos, 1941 Lisboa, 2006)

 

Mrio Sottomayor Cardia foi uma das figuras cimeiras do pensamento e ao polticos em Portugal, em particular da Esquerda, nos anos decisivos da transformao de Portugal no atual regime democrtico. Entre meados da dcada de 1960 e meados da dcada de 1980 foi grande a sua influncia na conduo, sucessivamente, da Oposio comunista, socialista (antes do 25 de Abril de 1974), dos preparativos das eleies para a Assembleia Constituinte e seus trabalhos, dos I e II Governos (como Ministro da Educao) e, por fim, da atividade parlamentar socialista na Assembleia da Repblica, durante a dcada de 1980. Esta preponderncia, contudo, no se baseou em jogos malabares mas numa capacidade (e Obra) intelectual singular em Portugal e numa autoridade pessoal resultante da sua coragem moral e fsica, antes e depois de 1974. A sua histria , por isso, no s a de um ator poltico influente mas igualmente a de um pensador poltico e filosfico de relevo na segunda metade do sculo XX portugus.

Oriundo de uma famlia burguesa bem integrada no Estado Novo, mas com antecedentes liberais, cedo a sua capacidade argumentativa lhe trouxe dissabores, expulso do Liceu aos 14 anos por apoiar a independncia da ndia portuguesa. Terminou os estudos liceais no Porto onde apoiou a campanha de Humberto Delgado (1958) antes de rumar a Lisboa para cursar Direito mas rapidamente passou para Filosofia, na Faculdade de Letras. Depressa se tornou dirigente estudantil e, depois de aderir ao PCP em 1961, trabalhou no setor intelectual durante a crise estudantil de 1961/2. Desde meados da dcada de 1960 a sua capacidade de interveno na Imprensa est registada, pois desempenhou grande papel na conduo da Seara Nova, ento em nova fase de influncia comunista. A discutiu com os seus camaradas questes polticas usando de grande vigor, tendo depois organizado, em 1971, uma antologia em 2 volumes representativa da histria da revista. Idelogo rgido, participou de forma determinada na estratgia comunista, apesar de a sua primeira discordncia com o PCP datar de 1968, aquando da ocupao sovitica de Praga. Discutiu o caso com lvaro Cunhal, que o convenceu a ficar no Partido e a participar na coordenao das eleies de 1969. Mas, mesmo depois de ter participado, com O Antimarxismo Contestatrio (1972) em mais uma polmica clebre contra um conhecido dissidente do PCP (Antnio Jos Saraiva, que publicara Maio ou a crise da civilizao burguesa), o seu afastamento dos comunistas foi inevitvel: em 1973, esteve na gnese do PS. Figura j cimeira nos meios oposicionistas, preso quatro vezes pela PIDE/DGS e objeto de torturas de invulgar dureza (que descreveu sumariamente em O Dilema da Poltica Portuguesa, de 1971), a sua participao foi um contributo de primeira grandeza para a credibilidade do novo partido como Oposio ao regime quer do ponto de vista moral quer do ponto de vista intelectual (era j autor de diversas pequenas obras de anlise da evoluo do regime que no eram tributrias da vulgata comunista de ento, como Por uma Democracia Anticapitalista, de 1973).

De imediato, e sobretudo durante o primeiro ano de democracia, Sottomayor Cardia torna-se, a par de Salgado Zenha e de Mrio Soares, a principal voz das polticas do Partido Socialista, em clara demarcao de quaisquer estratgias frentistas que lhe obscurecessem a identidade e tolhessem a liberdade de iniciativa. Depois, em 1975, destaca-se como orador e legislador na Assembleia Constituinte. Sem surpresa, integra o governo sado das eleies de 1976, como ministro da Educao. Dificilmente a sua ao pode ser sobrestimada, com efeitos que se sentem ainda hoje: criou o ano propedutico (agora 12 ano), ganhando tempo para repor ordem nas Universidades; criando o regime de numerus clausus e enfrentando em pessoa greves aparentemente capazes de o afastar do governo, chegando a fazer encerrar a Universidade de Coimbra durante seis semanas mas deslocando-se baixa da cidade para afirmar a sua autoridade. Saneou a influncia ideolgica comunista no ensino, consumou a introduo das cincias sociais no ensino superior portugus, influenciou a criao de novas instituies como a Universidade Nova de Lisboa. Em 1978, deixando o governo e a direo do PS, inicia o ltimo ciclo ativo de vida poltica, como deputado do PS (desde 1983 at 1991). A dcada de 1980 fica marcada pela proposta de retirada do cunho marxista do programa do PS pela publicao em 1982 de Socialismo Sem Dogma, (com prefcio de Mrio Soares) e por crescentes tenses com a direo da bancada parlamentar socialista, que, tendo atingindo a rutura durante a chefia de Jorge Sampaio, comearam antes, na direo de Victor Constncio. S abandonou o partido, contudo, em 1997, sem contemplaes com o estilo de Antnio Guterres (e j depois de um anncio de candidatura presidncia da Repblica, da qual veio a abdicar). Este percurso de marginalizao poltica foi alimentado por uma crescente autonomizao do seu pensamento, patente tanto no livro de 1982 como em Prosas Sem Importncia (recolha de textos de 1985) e noutras obras.

Entretanto passara de convidado a efetivo nos quadros de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1992 com a dissertao intitulada Da Estrutura da Moralidade, publicando no mesmo ano tica, obra de extrema mincia analtica. Autor de diversos trabalhos sobre Antnio Srgio e Vieira de Almeida, na rea da Filosofia, e de temas de teoria poltica (foi docente de Cincia Politica na UNL at perto do seu falecimento), deixa Obra variada e original, na Filosofia, Teoria Poltica, Histria da Cultura Portuguesa, ficando por editar as suas memrias, nas quais trabalhava altura da sua morte. Deixa ainda uma das maiores bibliotecas particulares do pas e um arquivo de valor histrico muito aprecivel. Como Professor, mais do que o tantas vezes referido racionalismo (real, de facto), um seu antigo aluno, que aqui subscreve, guarda a memria do homem mais livre e decente que encontrou numa sala de aulas o que tambm lhe trouxe alguns problemas entre alunos e colegas com hbitos menos anti- dogmticos.

O seu desaparecimento, inesperado, atraiu de novo alguma ateno sobre si. Foi parte de um perodo de Portugal que se perdeu, depois de anos de desinteresse geral. Nas reaes imediatas foi visvel quanto a sua ao e a sua pessoa marcaram tanto a poltica como a vida intelectual do pas, em textos de pessoas to diferentes como Jos Medeiros Ferreira, Jos Pacheco Pereira, Jos Leito, Miguel Castelo-Branco ou Manuel Alegre (apenas alguns nomes entre numerosos blogs e jornais).

  (Cortesia de Carlos Leone)

 

 


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