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RAÚL PEREZ

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Exposição FRAGMENTOS, Pintura e Desenho de Raúl Perez

Inaugura a 27 de Novembro de 2015, às 21h30
Até 28 de Fevereiro de 2016

 

Nasceu no Minho (Lovelhe, 1944) e realizou a sua primeira exposição aos 28 anos. Ligado à corrente surrealista portuguesa, em particular a Cruzeiro Seixas, Raúl Perez consegue incluir-se nessa continuidade e, simultaneamente, libertar-se dela.

O Surrealismo, todavia, é referência estruturante na obra de Raúl Perez, uma vez que as suas obras, simultaneamente inquietantes e perfeitas, assentam na materialização do enfeitiçamento. "Quando estou a pintar", diz numa entrevista, "não tenho consciência do que faço. Posteriormente é que me apercebo daquilo que um quadro significa.

Isto são sonhos. Não são ilustrações de sonhos, mas os sonhos em si. Desde muito cedo me apercebi de que tudo o que eu desenhava às ocultas da consciência continha uma linguagem e uma filosofia próprias, semelhantes às dos sonhos.

Pintor que expôs ao longo da sua carreira em Lisboa, Paris, Bruxelas, Amsterdão, Porto, Estoril, Alemanha, entre outros lugares, Raul Perez, a quem muitos chamam um dos últimos surrealistas portugueses, preparou para a exposição do Centro Cultural de Cascais uma retrospectiva da sua pintura.

 

 Pereira Coutinho2009 25x425cm 500x292

 

No catálogo da exposição de Raúl Perez na
Fundação Cupertino de Miranda (2006),
lembrávamos António Gonçalves e eu a
sua primeira exposição individual em 1972
na Galeria S. Mamede de Lisboa e o título
que deu ao que realmente era só uma
selecção do que anunciava: Diário Onírico.
E apontávamos que assim poderia ser
apresentada e entendida toda a sua obra:
anotações minuciosas e bem perfilhadas
do território do sonho, dos seus sonhos,
paisagens mais de ausências que de
presenças, povoadas por fragmentos
de seres espreitantes que dão forma ao
Enigma, praças e avenidas encerradas em
arquitecturas resgatadas de um silêncio
para um novo silêncio, castelos e torres de
observação e esgotos e portas e janelas sem
sombra de interior que se adivinhe, buracos
que invitam à aventura da descoberta e
ao mesmo tempo descobrem a ameaça
do poço e do labirinto, fumos solidificados
num universo de imobilidade, palcos onde
se representa a solidão com caras que
nos olham interrogantes e assustadas
quase sempre através de um sorriso triste
que ao mesmo tempo convida e intimida
num único gesto de cumplicidade e de
advertência. [...] O quadro transforma-se
num espectáculo teatral onde se invertem
as regras da tradição e dos costumes,
mudados os actores em espectadores
e deixando de ser o palco espaço da
representação para ser varanda donde
nós, público surpreendido e assustado,
somos irónicamente obervados, apreciados,
avaliados, julgados e condenados à
perplexidade e ao desassossego por
fragmentos de personagens que partilham o
seu habitat insólito com uma estranha fauna
fragmentada também –polvos, ratos, gatos,
cobras, ...- que tanto devem ao mundo
fantástico da mitología ou da fábula como
aos territórios que Carroll nos descubriu
doutro lado do espelho.
Já vários leitores atentos –a começar
por Lima de Freitas- falaram de 'pintura
metafísica' a propósito da obra de Raúl
Perez e lembraram pertinentemente os
espaços alucinados e aparentemente vazios
de Chirico. Se mudarmos levemente o título
da sua primeira exposição, poderiamos
talvez considerar as páginas desse seu
diário como uma colecção de paisagens
(ou cenografías) oníricas, fragmentos
estilhaçados do habitat interior de um EU
que, como destacou Álvaro de Campos
em Fernando Pessoa, podemos definir
como um 'novelo embrulhado para o lado
de dentro'. Espectáculo teatral de pernas
para o ar, como diria Manuel António Pina,
o autor-actor olha com surpresa do palco
para todos nós, espectadores à espera da
surpresa, e então começam a aparecer e a
povoar o espaço à volta do fragmento do
autor-actor fragmentos dos artistas do seu
circo particular e íntimo, o Desejo petrificado
com suas Asas inúteis de Ícaro vencido antes
do início do voo, petrificadas as águas, o ar,
o fumo das chaminés, e o bestiário circense
que olha petrificado também para fora do
palco e do quadro e observa como sobre
todos nós paira uma estranha ameaça que
nos vai petrificando também. Com razão
observava Cruzeiro Seixas: Cada um destes
quadros é um pressentimento, um presságio.
[...] Nas suas telas só aparentemente o
edificio é tão-somente um edificio, a
coluna uma coluna como qualquer outra,
o buraco um simples buraco que sugira
rato humorístico, ou presença erótica.
Vazio, ruina, negrura, sólidão que são a
representação de gentes que conhecemos
–e de nós próprios. Praças e ruas, vejo-as
povoadas, embora seja Inverno.
Raúl Perez sempre gostou de usar o
adjetivo 'onírico' para se referir ao
seu mundo criativo e até para apelidar
significativamente a personagem que
preside ao seu auto-retrato lírico:
JOÃO ONÍRICO
Chamo-me João Onírico
De noite voo sobre a cidade
como os vampiros
aterrorizando as crianças
De dia construo autómatos
e caixas de música  O meu maior prazer é agarrar
as meninas pelos cabelos
e esmagá-las de encontro
às paredes brancas
Gosto de falar com os espelhos
de ler Platão
de me esconder debaixo
das saias das mulheres
Habito numa galáxia ultravioleta
a dois milhões de anos-luz
sob o planeta de oiro
da madame Auschwaldenstein
Estou muito triste
a minha bailarina branca
fugiu de bicicleta
numa manhã de nevoeiro
deixando-me só
com os filhos esqueléticos
nos braços
Como o tempo passa...
estou careca...
até já me esqueci dos princípios
da mecânica celeste...
Lisboa , 1965
Metafísico, onírico: adjectivos pertinentes
e orientadores quando não usados
abusivamente pelos amantes de
recortar e organizar e arrumar a história
antidialecticamente em gavetas e cacifos
e pastas e arquivos com seus verbetes
e suas chaves. Mas, para além disso, e
substantivamente, um outro adjectivo
que estabelece vasos comunicantes
com Cruzeiro Seixas (entre outros):
SURREALISTA. Não, evidentemente, no
sentido propriamente 'histórico', mas sim no
daquele surrealismo 'eterno' de que falava
Schuster e que desconhece os limites e
as fronteiras espaciais ou temporais para
se colocar –e colocar-nos- no território da
tradição da 'aventura' na qual se inscrevem
aqueles que na caverna sentem a lembrança
e a necessidade da luz, e a procuram e
perseguem prometeicamente, mergulhando
no seu abismo interior para encontrar o
novo, como pedia Baudelaire.
Sabe bem Raúl Perez o que o Surrealismo
significa, propõe e exige: uma atitude
moral, ética e política, uma maneira de ver,
perceber e re-criar o mundo, e uma maneira
de o traduzir, isto é, uma estética e uma
poética e umas escolhas linguísticas e umas
técnicas e umas estratégias discursivas. Para
traduzir o mundo que descobriu e a que deu
nome para lhe dar realidade verdadeira, Raúl
Perez aproveitou às vezes as possibilidades
da linguagem verbal mas quase sempre
escolheu a plástica para a expressão das
etapas da sua viagem à procura do velo de
ouro. Óleos s/tela, mas, sobretudo, tintada-
china s/papel definem a materialidade
da maior parte da sua obra. E se os temas,
os assuntos, as personagens e os cenários
desse seu teatro plástico são universalmente
reconhecidos como extraordinariamente
pessoais e diferentes, o mesmo poderíamos
dizer das suas obras feitas com tinta-dachina
s/papel, onde desenhos e volumes
lembram mais as mãos e a arte das rendeiras
do que a caneta ou o pincel. Heterodoxo
em quase tudo, até no 'umor' (assim, sem
agá, como Breton chamava o de Vaché)
que rara vez impõe impudicamente a sua
presença, soube seguir e partilhar algumas
das prácticas surrealistas mais queridas
dos artistas portugueses, como os jogos
colectivos –a exploração do amor e da
amizade como motores da imaginação e da
criatividade- e entre eles o muito conhecido
do cadavre-exquis para o que contou
com a cumplicidade, entre outros, do seu
amigo Artur Manuel do Cruzeiro Seixas,
o mesmo que um dia confessou que era
"um prisioneiro dos sonhos", o que talvez
ajude a entender a obsessão de Raúl Perez
por explorar e nos mostrar os interiores, os
habitantes e os costumes dessa prisão.

Perfecto E. Cuadrado
Texto que fará parte do Catálogo da exposição 

 

 

 

 

 

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