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EMILIA NADAL

Exposio Tudo Acontece

3 de Setembro a 23 de Outubro de 2011  

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A Fundao D. Lus I apresentou no Centro Cultural de Cascais, a Exposio Tudo Acontece da pintora Emlia Nadal, que tem repartido a sua Arte pela pintura, desenho, gravura e cenografia para teatro e ballet. Emilia Nadal Presidente da Sociedade Nacional de Belas Artes e est representada em muitas das mais importantes coleces, nomeadamente nas Fundaes de Serralves, Gulbenkian, Berardo e Caixa Geral de Depsitos.

 

Algumas faces de um cristal

 

Tem esta exposio faces que tentmos adaptar ao duplo espao das salas de exposio. No as duas faces de uma medalha; e sim, faces que olhamos rodando na mo o poliedro (por vezes cristalino, por vezes obscuro) que o corpus da obra construda pela artista.

Uma das faces reflecte imagens da atenta presena e interveno cvica da artista. A outra, imagens de uma tambm permanente intencionalidade lrica. Ambas se cruzam num eixo de orientao dado pela forte conscincia da temporalidade. Ateno ao que da Natureza e ao que da Sociedade (ou seja, ao que pertence cultura e poltica) so outros nomes para um trabalho que se sustenta no desejo de fuso do que profano com a dimenso discursiva do sagrado.

Os contextos histricos importam a quem deseja intervir civicamente; e o contexto portugus (quer poltico, quer social) dos anos ps-25 de Abril que desencadeia os divertissements supostamente Pop da artista. Supostamente, porque a Pop j tinha internacionalmente acontecido h muito; e porque uma ironia feita sobre a (ou atravs da) Pop que Emlia Nadal desencadeia. Do que as obras de 1976-77 so exactamente contemporneas do tempo revolucionrio/ps-revolucionrio ento vivido: quando, em Portugal, pas afastado da Europa, houve conscincia colectiva dos pecados da sociedade de consumo capitalista, ela quase no existia; foi exactamente a Revoluo (e o seu fracasso) que permitiram instaur-la, juntamente com a democracia poltica. Jogando com esta contradio (em si mesmo irnica) e com uma imagerie Pop levada a extremos caricaturais, Emlia Nadal assimila a vertigem, tambm ela caricatural da vida poltica, a produtos de venda fcil e massificada, marcados pela suspeita de uma evidente falta de qualidade e fradulenta informao.

Hoje, diramos poder a artista ser acusada de publicidade enganosa... E exactamente hoje, nos anos de 2009-11, num contexto histrico igualmente intenso e dramtico, que ela regressa frmula das embalagens, que anunciam novos produtos capazes de resolver problemas estruturais (a Corrupo) ou de os agravar... O facto de Emlia Nadal nos oferecer os dois caminhos em simultneo indicia a ironia subjacente, presente j nas crticas que, h mais de 3 dcadas, fizera ao turismo massificador das paisagens, tecnocracia, verborreia poltica, imagem tradicional da mulher, violncia militar, ao esvaziamento ideolgico... So temas de que, em parte, s agora percebemos a plena actualidade e cuja confirmao, como documento de um perodo histrico-artstico, inquestionvel.

A soluo formal encontrada com as embalagens e rtulos pode abrir-lhe outras vias de trabalho, nomeadamente insinuar uma dimenso potica que ocupa parte significativa de outros trabalhos: o caso de peas como A Via Lctea (1977) ou Suspenso (2009) ou, numa rara dimenso formal e cromtica, a instalao Cores e Produtos (2010-11).

Nesta seleco de obras somos literalmente conduzidos a essa dimenso potica atravs de um Prtico (1977-78), conjunto sequencial de cinco litografias onde Cultura e Natureza se fundem. Um Prtico, de complexa arquitectura ps-clssica (quase diramos de srio delrio piranesiano ou pardia ps-moderna), abre-se (e multiplica-se em solues quase-narrativas) sobre uma paisagem metafsica onde aparecem, como elementos recorrentes na sua obra, a distendida baa e a longnqua ilha. Este modelo de arquitectura efmera e de passagem opera uma simultnea ruptura e ligao na paisagem onde se inscreve: separa e une o espao, estabelece uma moldura dentro da moldura, abre o que pode ser uma ferida ou um abrigo.

exactamente sob a designao de Ruptura que se desenvolve uma importante srie de seis desenhos apresentados. Neles, Emlia Nadal constri delicadas paisagens a p/b (raramente coloridas) que se abrem sobre (ou onde se abrem) novas paisagens. Nas diferentes solues experimentadas pela artista encontramos como determinantes os eixos do tempo e do espao. As rupturas podem assumir a imagem de alvolos ou rasges, solues de grande delicadeza ou de alguma violncia, podem representar modelos de um mesmo tempo e lugar ou fazer abertura para outras dimenses espaciais e temporais. Estes efeitos produzem iluses de desdobramento e de penetrao, de descoberta e sobreposio, de arrastamento e passagem. Porm, insinua-se sempre nesta visualidade uma textualidade potica onde o lirismo nos define um lugar atpico (sem lugar) e atemporal num trabalho onde o espao parece dominante, a ideia de suspenso do tempo (proposta pelas paisagens paradisacas) ou o entendimento da sua passagem como tempo interior (proporcionado pelo que podemos adivinhar ser uma musicalidade de fundo) que domina e nos conduz s suas obras mais recentes.

Em Interfaces (2003), Calendrios (2010-2011) ou Vanitas (2011) esse domnio do eixo do tempo que se afirma. O tema a observao e imaginao da passagem do tempo na natureza (verdadeiros dirios protagonizados pelas flores e folhas que crescem, desabrocham e morrem...) e da passagem do tempo no rosto (auto-retratos reais, supostos aqueles onde se imagina no passado e no futuro e automticos os que inscrevem o observador em tempo real e logo o obliteram na superfcie de um espelho como substituto da tela ou do papel).

Tudo o que acontece, fora e dentro de ns, na cidade como no corao, na poltica comum ou no corpo individual, usa o poder da palavra e a omnipresena da natureza como metforas do tempo humano e importa ao trabalho de Emlia Nadal. O modo como a artista equilibra linha e cor, opta pelo desenho ou pela pintura, usa a fina ironia crtica e o claro lirismo musical ou procura o flego dos difceis veios do sagrado vai revelando sucessivas faces da sua obra um cristal que nos deixa nas mos para nele vermos o passado, o presente e o futuro do nosso tempo e lugar.

 

Joo Pinharanda

 

Post-Scriptum:

Uma Ideia de Europa em Emlia Nadal

No centro (simblico) desta exposio a artista considera uma assemblage que funciona como verdadeiro manifesto. Rene um conjunto de materiais e formas diversas, mas uma associao bem pouco surrealista e nada dadasta. Tem uma directa intencionalidade poltica que completa, num tom pessimista, a vocao irnica das obras de Emlia Nadal que designmos de interveno cvica. Esta obra funde dois raptores, um Zeus metamorfoseado (mas em touro negro, o que nunca deixar de nos lembrar o Minotauro) e a representao medieval da Morte que ocupa o lugar da bela Europa mitolgica raptada aqui, as palavras (como os slogans) no so sequer necessrias. Europa, tem a dimenso  domstica de um centro de mesa; e bem podia ser colocado na baixla de um banquete oficial, em Bruxelas ou Estrasburgo.

 

Imagens da exposio no Centro Cultural de Cascais

 
 
Emlia Nadal
De ascendncia catal, nasceu em Lisboa em 1938.
 
Formao Acadmica
Curso de Cermica Decorativa na Escola de Artes Decorativas Antnio Arroio. Licenciatura em Pintura pela Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (1960). Iniciou-se na gravura com Maria Gabriel e Ilda Reis, na Cooperativa Gravura (1974) e frequentou um workshop de Holografia GoldsmithsCollege, University of London (1983).
 
Referncias
Recebeu os Prmios Anunciao e Lupi de Pintura da Academia Nacional de Belas Artes (1959) e uma Bolsa da Fundao Gulbenkian para Investigao em Comunicao Visual para o projecto Embalagens para Contedos Naturais e Imaginrios Liofilizados, nas reas da pintura, desenho, gravura, objectualismo e video-performance (1976-1978).
 
Meno do XVI Prmio Internacional de Desenho Joan Mir (1977) e Prmios de Edio na I e na II Exposio Nacional de Gravura (1977-1979). Participou na pintura do painel colectivo alusivo ao 10 de Junho de 1974, iniciativa do Movimento Democrtico de Artistas Plsticos.
Representou a Sociedade Nacional de Belas Artes no Conselho Nacional de Educao.
Com Jorge Barreto Xavier elaborou o Parecer Educao Esttica, Ensino Artstico e sua Relevncia na Educao e na Interiorizao dos Saberes. (CNE-1998) Preside Direco da S.N.B.A. desde 2005.
 
Actividade como Artista Plstica
Expe desde 1957 e participou em numerosas exposies colectivas em Portugal e no estrangeiro, a ttulo individual ou em representao da pintura e da gravura portuguesa contempornea, em Espanha, Frana, Finlndia, Alemanha, Sucia, Grcia, Inglaterra, Itlia, Brasil, Alemanha, Nova Zelndia, Mxico, Bulgria, ex-Jugoslvia, Polnia, Macau e Japo.
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